16 anos de rebeldia sem violência

•outubro 30, 2008 • Deixe um comentário

Todo mundo fala sobre os problemas ambientais, todo mundo assiste às notícias, mas, pouca gente veste a camisa do verde

POR MAYARA MALUCELI

Paz verde é a tradução. Mas não existe interpretação melhor que o original. O trabalho do Greenpeace comemorou 37 anos de atividade em defesa ao meio ambiente, no dia 15 de setembro. Dia vivo. Já o Brasil passa bem junto à Organização não-Governamental há 16 anos. Uma adolescência de muita rebeldia calada, sem violência.

Lembra do Eco-92? Pois bem, o Rio de Janeiro foi sede para Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento cujo objetivo era buscar meios de conciliar o desenvolvimento sócio-econômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra. Nesse ano também atracou no Rio, o barco do Greenpeace. Rainbow Warrior. Guerreiro do arco-íris. O espectro colorido, naquele ano, fixou 800 cruzes em Angra dos Reis, simbolizando o número de mortos em acidente nuclear, na Ucrânia. Essa foi a primeira campanha do Greenpeace em terras brasileiras.

Não é apenas sobre química que o Greenpeace quer alertar no Brasil. Principalmente a Amazônia. O mês de agosto foi repleto de denúncias sobre as queimadas que ali se alastram. Aconteceram show de Scorpions, em Manaus; em protesto, colaboradores da Organização se vestiram de bombeiro, em Brasília; e, no site do Greenpeace, foi divulgado um relatório revelando a porcentagem dos fogos não-orientados no pulmão do Planeta. No entanto, nenhuma dessas ações foi manchete, muito menos, chamada de telejornais, e sim, meras notinhas de papéis de carbono.

Como se sabe, o Greenpeace não depende do Governo do país que está instalado. Hoje, são mais de 40. A arrecadação oriunda das pessoas físicas, dos filiados. Em dez anos, 1997-2007, foram mais de 25 mil filiações, segundo o banco de dados, disponibilizado pela equipe do Greenpeace que preferiu não divulgar o contato. “Basta entrar no site ou cruzar com nossa equipe nas ruas e preencher os dados solicitados. A pessoa se tornará um colaborador permanente, contribuindo financeiramente com a organização”, em conversa por e-mail.

E o que eu ganho com isso? Ora, além de participar de uma das mais organizadas e bem sucedidas Instituições em prol do meio-ambiente, você receberá uma revista que relata os gastos do Greenpeace, e como está a relação sociedade-ambiente! E essa é a principal tarefa da Organização: ser transparente.

Laura Fuser, atendente do colaborador do escritório Greenpeace, respondeu por e-mail que a essência do trabalho da Organização está na atuação não-violenta. Isso consiste numa atitude árdua, mas de gratidão; uma vez que as campanhas não só denunciam e produzem relatórios, como apresentam soluções para tais problemas.

Uma campanha bem visível e novinha é a dos Oceanos. No domingo 16 de agosto, o parque Villa-Lobos foi palco para uma tenda da Organização. Era um túnel sensorial que explanava e ilustrava as discussões que ocorrem sobre as águas azuis escuras. De acordo com as informações do blog (http://greenpeace.blogtv.uol.com.br/), mais de 400 pessoas colaboraram para o vídeo explicativo do projeto. Foi uma participação, ainda, baixa.

Outra forma para contribuir com o crescimento da Organização é fazer compras! Pois é, existe uma butique, no Shopping Frei Caneca, em frente à Renner. A idéia não é vender algodão cru, e uma estampa em verde, muito menos se tornar em concorrente à loja de varejão, mas comercializar uma causa.

Ana Maria Fuentes, 55 anos, é a dona da idéia do amigável. Lá na simpática lojinha não são vendidas peças ecologicamente corretas, pois melhor não haveria. “Os nossos produtos não passam de 5% não-orgânico. Ainda não é o ideal, é o que podemos fazer no momento. Mas pode melhorar. A gente sempre pode melhorar” enfatiza. “Se você disser que uma coisa é ambientalmente correta você fecha muito a questão. Eu acredito na idéia que qualquer coisa pode se superar, por isso prefiro o termo ecologicamente amigável a correto. É mais apropriado.”

Camisas, bijuterias, papelaria e outros artigos são os produtos da loja. Perguntei à Ana Maria a situação das vendas; em tom de esperteza contou-me que estão amigáveis (podem melhorar). De certo, o primeiro semestre não foi bom para o varejo em geral, devido à crise dos alimentos. Muita gente se endividou e acabou transtornando a economia global. Mas a dona do Espaço está confiante quanto ao Natal. “Geralmente dobra, algumas vezes triplica. As pessoas gostam de presentear com os nossos produtos. Pega super bem.”

O preço dos produtos é justo. Afinal, entre vários outros fatores, a produção de algodão orgânico no mundo é pequena. Apesar do enorme incentivo, os livres cultivadores não produzem o suficiente para o que pede a demanda.

Nem sempre é possível agradar a clientela. Muitos pedem uma camisa preta, por exemplo, “mas não dá” declara. Combinações de ervas não chegam à ausência de cor, exige muita química. No entanto, quando e onde deve ser orgânico, a loja é bem amigável. A madeira que recobre as bancadas é Teca, prima do eucalipto; as tintas são à base de água; para dar resistência às prateleiras utiliza-se MDF, um aglomerado de resto de madeira. 

Para mais informações sobre o Greenpeace, ou, melhor, se você quiser contribuir, entre no site: http://greenpeace.org.br

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Por trás dos benefícios dos cosméticos

•outubro 30, 2008 • Deixe um comentário

Testes em animais serão facilitados por lei que aprova tal prática e entra em vigor

POR SABRINA FANTONI E MARINA MAC DOWELL

O termo “vivissecção” surgiu do ato de dissecar animais vivos para estudo, por isso o prefixo “vivis” da palavra. Esse é um assunto que vem polemizando e dividindo opiniões: há aqueles que crêem ser sensata a prática de testar produtos em animais – que não é necessariamente o ato de vivissecar- para que possamos utilizá-los com segurança; em contraponto, existem aqueles que são totalmente adversos a esse tipo de teste não só por ser uma forma de maus tratos ao animal, mas sim por consideraram um atraso da ciência e por ser totalmente substituível e descartável.

A lei sancionada no dia 9 de setembro de 2008 permite o uso de cobaias para fins científicos, porém o projeto de lei do deputado Sérgio Arouca propõe uma fiscalização forte em cima da indústria vivissectora, criando o Conselho Nacional de Experimentação Animal (CONCEA), que avaliará e irá monitorar a substituição do uso de animais em pesquisas.

Quanto à lei, segundo a ONG “gato verde” de Deolinda Eleutério, a indústria da experimentação animal sofre grave pressão no exterior e por isso precisava de suporte no legislativo para poder realizar as suas atividades do terceiro mundo. Do ponto de vista prático, a medida acaba com leis municipais que tentam proibir a pesquisa com animais.

Cerca de 400 milhões de animais são sacrificados todos os anos pelas necessidades da vivissecção. Um terço desse incrível número pertence à investigação médica; dois terços a atividades diversas: indústria de alimentação, cosméticos, produtos de limpeza, tabaco e indústria de guerra. São ratos, porquinhos da Índia, coelhos, cães, gatos, macacos, cavalos, bois que servem de “instrumentos biológicos”.

Há muitos casos comprovados de medicamentos testados em animais em que não foi constatada reação alguma, mas quando ingeridos ou aplicados no homem, causaram sérias complicações. Todas as empresas têm a mesma argumentação; estão agindo conforme a lei.

Foram feitas pesquisas e é mais do que provado que os ensaios nos animais nunca darão uma perfeita satisfação, pois, por sua constituição, tamanho e reações orgânicas, eles diferem enormemente do homem, além de custar a vida de animais sem finalidade. As conseqüências nos bichos são, dependendo dos testes, cegueira, convulsões, lesões pulmonares, renais e hepáticas.

Com o avanço tecnológico é evidente que existem outros meios para podermos usar cosméticos, remédios e muitas outros produtos sem que precise violar a integridade física dos animais. Segundo a Aliança Internacional do Animal (AILA), há produtos que são verificados quanto à segurança via modelos de computador, in vitro (tubo de ensaio) ou em pele humana clonada, ou usando ingredientes já listados no registro da FDA de substâncias consideradas seguros. Muitas vezes, as experiências em animais são praticadas com requintes de crueldade, causando sofrimento físico e psicológico para eles.

A comodidade, o baixo custo faz com que essa pratica seja intensa, a Assessora de Imprensa da ONG Projeto Esperança Animal (PEA), Cristina Bonagamba diz que: “Acreditamos que as empresas insistem no uso de animais por ser mais barato e mais fácil, porém, de longe, não é o método mais seguro para o ser humano. Ao longo dos anos, muitas pessoas morreram devido aos testes feitos em animais. Eles não reagem da mesma forma que os humanos. Entre inúmeros exemplos, um deles foram as pesquisas em animais prejudicaram o desenvolvimento da vacina contra a pólio. A primeira vacina contra pólio e contra raiva funcionou bem em animais, mas matou as pessoas que receberam a aplicação,” conta Dr. Albert Sabin.

Tradição feita tijolo a tijolo

•outubro 30, 2008 • Deixe um comentário

 Professor do Mackenzie é responsável pela revitalização da Liberdade

POR GABRIELA AMARAL

 A faculdade Mackenzie de Arquitetura e Urbanismo foi a primeira de São Paulo e a segunda do Brasil, criada em 1947. Uma das mais importantes escolas de Arquitetura do país teve sua origem na Escola de Engenharia Mackenzie, onde desde o início do século já funcionava o curso de Engenheiro-Arquiteto. Seu primeiro diretor, considerado também seu fundador, foi o arquiteto Cristiano Stockler das Neves, idealizador, entre outros, do edifício da Estação Júlio Prestes em São Paulo. Hoje a faculdade possui mais de 3 mil alunos e abriga os cursos de Arquitetura e Urbanismo e de Desenho Industrial.

No entanto não ficaram no passado os nomes conceituados. Atualmente um professor aparece em programas de televisão, reportagens e entrevistas diversas. Marcio Lupion, ex-monge e arquiteto, é um dos responsáveis pela revitalização do bairro da Liberdade. A semente do projeto foi lançada há dois anos, quando Lupion e o filho, Gabriel, passeavam pela Liberdade e se impressionaram com uma cena inusitada. Eles observaram um grupo de turistas japoneses descerem do ônibus para tirar fotos de uma praça do bairro, mas decepcionados com o que viram não tiraram as fotos. Foi quando o filho dele lhe perguntou: “Pai, você é arquiteto e não vai fazer nada?”. “Aí não teve jeito, tive de parar para pensar naquilo e surgiu a idéia de revitalizar o bairro e devolver para São Paulo a alma de uma cidade afetiva”, conta ele.

O projeto destinado ao bairro tipicamente oriental vigorou com a vinda do imperador para o Brasil. Segundo a lenda, onde o imperador japonês pisa, tudo floresce. Quando esteve por aqui, em 1997, seus passos geraram bons frutos. O príncipe, atual imperador, percorreu a rua Tomás Gonzaga, passou pela rua Galvão Bueno e encerrou seu passeio na Praça da Liberdade. Esse trajeto ficou conhecido como “Caminho do Imperador” e inspirou o arquiteto Márcio Lupion a criar o projeto.

A primeira fase das obras começou em abril e tem previsão de conclusão para dezembro. Entre os locais que passarão por mudanças, estão as fachadas dos comércios, os viadutos Cidade de Osaka, Shuhei Uetsuka, Mie Ken e Guilherme de Almeida. A praça Almeida Júnior também será reformulada. Uma das novidades é a escultura de um Buda em pedra, de 6 metros de altura. E como o bairro agrega diversas comunidades orientais, cada uma delas, seja coreana, japonesa ou chinesa, será respeitada. “As fachadas das lojas, por exemplo, vão obedecer a suas características.” diz Lupion.
 
Com as obras no início os comerciantes da região estão um pouco irritados. “Não está como em Tóquio, Bangkok. Lá é tudo colorido e bagunçado”, declara Shang, proprietário de um mercado típico japonês no bairro. Contudo a iniciativa de reurbanização fez a visibilidade da região aumentar. “Está ficando bonito, estava precisando de uma limpeza, vamos esperar pra ver o resultado final”, acrescenta.

A ligação de Lupion com o Mackenzie vem da época em que ele era apenas aluno. Aos 20 anos ingressou no curso de Desenho Industrial. Diferentemente do formato atual, a escolha pelo aprendizado específico só vinha depois de um ano destinado ao lado artístico. “No quarto ano de faculdade, quando já estava em arquitetura, tive professores que eram anjos, filósofos. Professores que olhavam e falavam pra mim: ‘Marcio, arquitetura é para gênios’. Ao mesmo tempo tinham profissionais que não estavam muito interessados.”, relembra a fase em que era aluno. Depois de um tempo ele foi convidado para trabalhar como professor do curso e já está atuando no Mackenzie há 20 anos. Profissional renomado, Lupion fez mestrado e completou seu doutorado na mesma faculdade. Sobre o Mackenzie ele é só elogios: “O Mackenzie hoje é o que sobrou do universo de bondade”.

Após a liberdade, mais oito bairros chegaram como propostas para a aprovação do arquiteto. “Hoje eu tenho um pedaço enorme da cidade para reformar. O importante é você sempre deixar o lugar melhor do que ele está”. Isso revela como a faculdade é influente e espalha pela cidade obras projetadas pelo seu corpo docente: Igor Guatelli com o projeto Baixios do Viaduto e Spandoni com o projeto Pavilhão Loja SESC, representam bem essa realidade.

A Profª. Drª. Nadia Somekh, diretora do curso de Arquitetura e Urbanismo, exalta a qualidade do curso e o reflexo que isso proporciona aos formandos. “Possuir no corpo docente professores conceituados que tem obras espalhadas pela cidade influencia na inspiração que pretendemos despertar nos alunos”. Ela tem orgulho de ter profissionais como Marcio Lupion, mas enfatiza os muitos outros que constroem essa tradição. Fundamental é traçar com todas essas histórias o futuro de uma faculdade que molda o destino daqueles que estão dentro dela. E esses aprendizados todos não valem apenas na teoria, o importante é praticar: rascunhos e rascunhos na mão.

Desafios da Apuração

•outubro 30, 2008 • Deixe um comentário

No carnaval, na Bolsa de valores, na estrada ou na delegacia. Por onde quer que passe um repórter, a notícia vem sempre em primeiro lugar.

Por Mariana de Paula e Manuela de Carvalho

Todos os dias notícias correm por todos os cantos, porém, quem voa são os repórteres. Desafios são enfrentados de minuto a minuto. Não há tempo para nada, se bobear a matéria “cai”.

André Aguiar, jornalista da rádio Jovem Pan. Em 2003, uniu o útil ao agradável quando foi cobrir a eleição da nova rainha do carnaval de São Paulo. A eleição atrasou devido a uma briga entre duas escolas de samba que envolvera até tiroteio. Tal atraso provocou um fato inusitado: a atual rainha de São Paulo naquela época acabara de ser eleita rainha de carnaval do Rio de Janeiro, ou seja, ela seria rainha dos dois pólos do carnaval brasileiro. André e sua colega iriam entrevistá-la. Juntos foram até o camarim de Amanda (a rainha), que acabava de se maquiar. Apressada Amanda os avisou, que precisava se trocar, simplesmente tirou a roupa na frente deles, ficando totalmente nua. “Nunca fiquei tão vermelho foi um sacrifício entrevistar Amanda depois, lembrando da cena. Afinal não é todo dia que um mulherão de 1,70 fica nua em sua frente”, disse André.

Falar de economia não é fácil, imagine ter que explicar para todas classes econômicas brasileiras? Denise Campos de Toledo, atual comentarista de economia do SBT, conta seu segredo “Eu considero que estou falando para alguém que nunca mexeu com finanças”. Na fase de sobe e desce da bolsa ocorreu um fato engraçado, conta a jornalista. O mercado estava tranqüilo e Denise foi trabalhar de mini saia, pois iria a uma festa mais tarde. De repente, a bolsa despencou e a mandaram para o Pregão. Lá estavam mais de cem homens e o lugar era inteiro de vidro. “Morri de vergonha, mas tive que fazer a matéria de qualquer jeito”, riu a jornalista.

Manso só no nome, o repórter da Rádio Bandeirantes, Leandro Manço convive até hoje com a piadinha dos colegas: “cuidado que o cavalo vai te pegar”. A piada surgiu quando em 2005, na véspera do carnaval, ele cobria o trânsito na estrada Pd. Manuel da Nóbrega. A rodovia estava vazia até que surgiu um cavalo do nada e a transformou num caos. O animal era indomável, o número de veículos aumentava. Ao entrar ao vivo para contar a confusão, Leandro percebeu da rua que o cavalo caminhava em sua direção. Sem conseguir esconder seu desespero no ar, o repórter finalizou o boletim dizendo: “vocês me dão licença, mas agora terei que correr”.

“Eu não te disse, doutor, to solto!”. Essa é uma frase marcante da época de repórter Francisco de Assis, hoje editor assistente na Agência Estado. O fato se deu quando ele apurava uma matéria em Osasco. Tratava-se da prisão de um jovem bandido que havia assassinado um PM. O repórter foi entrevistar o preso, que ao fim da entrevista, acrescentou que não estava preocupado, afinal era menor de idade e logo estaria solto. Francisco não retrucou, afinal o garoto havia matado um PM, não se livraria fácil. Cerca de dois meses depois, em um ponto de ônibus de Osasco, O jornalista recebe um cutucão nas costas. Era o bandidinho, esbanjando sua liberdade. “Espantei-me com a impunidade e gelei de pensar que o assassino tava ali do meu lado. Mas o garoto foi embora sem fazer nada comigo e foi nessa hora que eu percebi a importância de saber lidar com esse tipo de entrevistado, respeitá-los para não ter que pagar o preço no futuro. A postura que eu tive na entrevista de dois meses atrás salvou minha pele.”

Falando em prisão, que tal um repórter que acabou sendo preso por engano no meio de uma reportagem? Essa é uma das várias histórias que carrega Fabiano Falsi, jornalista há dez anos, atualmente editor de política da Record News. Em 2004, após um dia intenso de trabalho, fim de tarde, trânsito acentuado, passa pelo carro dele um apressado Gol de portas ainda abertas, onde estavam assaltantes. Sem pensar duas vezes, Fabiano corre atrás dos fugitivos, porém, com a companhia da polícia logo atrás de seu carro. Resultado: o jornalista foi preso junto com os bandidos, suspeito de fazer parte da quadrilha, que havia roubado o Gol. Ficou preso até a vítima, dona do carro roubado, afirmar que não se lembrava dele no assalto. Saindo da prisão, para onde foi Fabiano? Claro, para a redação fazer a matéria em primeira mão.

Um repórter profissional corre contra o tempo a todo instante, encara todo tipo de pessoa e situação, está disponível a qualquer hora do dia, se torna dependente dessa correria e, inevitavelmente, perde sua qualidade de vida. Mas para quem tem paixão pela profissão, esses sacrifícios se tornam um prazer, uma fonte de vida.

A cidade mal adaptada exclui cadeirantes de bens e serviços públicos

•outubro 30, 2008 • Deixe um comentário

Martins até caiu da cadeira de rodas; Denis ficou por três horas esperando um ônibus com acesso especial para poder voltar do trabalho.  A falta de adaptação da cidade para cadeirantes dificulta o ir e vir deles.

 

Por Marcio dos Anjos

“A cidade não é adaptada para nós [os deficientes]. Tem pouco ônibus e metrôs com acesso; as calçadas são muito esburacadas…”. É assim que Luciano Martins dos Santos, 30, se expressa quando é perguntado sobre o acesso aos serviços e bens públicos para ele, um deficiente físico.

Martins ficou paraplégico quando se acidentou na escada de casa e, ao ir ao médico, descobriu que tinha o parasita da esquistossomose, que o deixou dependente da cadeira de roda desde os 17 anos de idade. Já perdeu um emprego por causa de sua má adaptação para os deficientes; e, contudo, conseguiu outro por meio das cotas e hoje trabalha como auxiliar administrativo na DHL EXPRESS, na região da Lapa – na qual é o único deficiente físico – e estuda Direito na Faculdade Drummond. Segundo ele, a empresa adaptou o acesso de banheiros, elevadores, etc. somente depois que ele entrou; já a faculdade tinha acesso antes de sua entrada.

O Brasil tem pouco menos que 1,5 milhões de deficientes físicos cadeirantes, segundo o último censo realizado pelo IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2000. Estão aí incluídos tetra, hemi e paraplégicos e aqueles que não têm um membro ou parte dele. Pela  lei n° 10.098, de 19 de dezembro de 2000, os deficientes, têm direito ao atendimento prioritário, acesso de modo equânime aos bens urbanísticos, vias, transporte coletivo e aos serviços públicos a fim de que se garanta a sua total autonomia e liberdade de escolha.  

Entretanto, não é isso que se vê de fato.  Os metrôs e ônibus oferecem pouco acesso – e quando o faz, é de modo precário -, muitas calçadas estão esburacadas, o que faz o cadeirante, sem saída, optar pelo uso da rua ou avenida mesmo. Enfim, o deficiente acaba quase que numa exclusão, pois suas opções são limitadas e restritas.

Mantins conta que já chegou a cair várias vezes. Uma delas foi na Av. Paulista. “Às seis horas da tarde, quando fui desviar de um buraco, acabei caindo no canto da avenida, entre a calçada e a rua. Sorte que tinha bastante gente e logo vieram me ajudar” narra ele. Hoje não é mais assim: as calçadas da Paulista foram reformadas, ao custo de mais de R$ 8milhões aos cofres da cidade. “Com essa reforma dá prá andar legal lá, mas o prefeito acha que São Paulo é só na Paulista? Tem que arrumar as outras calçadas também”, conclui.

Outro deficiente, Denis Cariac, 23, operador de telemarketing, já teve que esperar três horas até chegar a “lotação” adaptada para poder voltar do trabalho. “Eles pensam que eu estou a passeio, que posso ficar lá o tempo que for”, reclama ele. Segundo, o artigo “Transporte Acessível” publicado no site da prefeitura, circulam atualmente 487 ônibus com acesso aos deficientes na cidade. E, em seu site, a SPtrans afirma que a frota atual é de 15 mil ônibus que circulam diariamente.

“Os ônibus demoram muito, são poucas estações que têm acesso para deficientes. A [estação] Lapa, por exemplo, não da para entrar nela direto. Eu tenho que ir até a Domingos de Moraes (que fica duas estações a frente) e voltar. Só assim mesmo para poder ter acesso lá”, atesta Martins, que trabalha na Lapa  e volta para sua casa, em Guaianazes.

Cariac é deficiente há cinco anos. Sua deficiência decorreu de um acidente, quando fraturou o pescoço ao dar o pular em uma piscina rasa . Segundo ele, foi difícil se adaptar; mas, hoje leva uma “vida normal”. Está aprendendo a jogar basquete, e quando pode, vai a shows, festas noturnas, dentre outras.

Contudo, ele se mostra otimista. Disse que o acesso está melhorando, “mas que ainda falta muito”, completa.

“Nós temos que sempre batalhar. Nunca desistir. Porque se você não for atrás de seus direitos, ninguém vai no seu lugar. Por isso que eu estou aí, sempre batalho” , finaliza Martins.

A Secretaria Municipal de Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SMPED) informou no dia 10 de setembro deste ano, por meio de seu site, que neste mês de setembro lançará o programa “Sistema de Acreditação de Acessibilidade”, que dará o reconhecimento aos bares, cinemas, agências bancárias, etc que promoverem “reconhecimento público de ações afirmativas de acessibilidade”. Esse reconhecimento se dará por meio de estrelas, que variarão de uma a cinco. Quanto mais estrelas um estabelecimento tiver, mais acessibilidade aos deficientes ele estará dando. A ação é voluntária, depende do dono do estabelecimento. Se ele quiser ou não adaptar o local, só ele pode escolher.

ACADÊMICOS A PORTAS FECHADAS

•outubro 30, 2008 • Deixe um comentário

O discreto e secreto charme da Academia Paulista de Letras 

Por Lucas Rossi 

O Largo do Arouche, centro da capital paulistana, está calmo. Poucos carros e poucas pessoas caminham em frente aos antigos prédios. Histórias parecem querer brotar do chão, das árvores. As estátuas, a qualquer momento, contarão alguma história dos tempos em que o local era sinônimo de sofisticação. Em um dos prédios, escondido entre duas árvores de copas largas, a serenidade do Largo é rompida por uma discussão acalorada.  

Para chegar até à discussão, o elevador é o caminho. A ascensorista lê um livro. No andar de carpete escuro e quadros de antigos presidentes, as portas estão fechadas, ninguém entra. Vez ou outra o corredor do terceiro andar é tomado por algum senhor que abre a porta. Aliás, o corredor mantém o mesmo ar sereno do Largo. 

Um jovem escritor, que não é imortal, está sentado em um dos sofás de couro verde, mais precisamente no sofá central. Ele espera, com um copo de cerveja pela metade, por Inácio de Loyola Brandão, um dos acadêmicos que não compareceu às 17h daquela quinta-feira 11 de setembro, horário que normalmente acontecem as reuniões. 

A Academia Paulista de Letras, abrigo de alguns intelectuais do estado de São Paulo desde 27 de novembro de 1909, parece querer se esconder do mundo. Algo como uma sociedade secreta. Mas Geraldo Dias Moreira, o redator de atas da academia desde 1976, afirma que “não há nada de secreto”. O que acontece é que “hoje em dia, tudo precisa de audiência, tudo precisa ser popular e a Academia não tem essa característica, ela é discreta, tem um charme”, comenta Walcyr Carrasco, o mais novo imortal empossado na semana anterior. 

Nomes como os de Mário de Andrade, Plínio Salgado, Marcos Rey, Sérgio Buarque de Holanda, Monteiro Lobato e Menotti Del Picchia ocuparam algumas cadeiras. Atualmente, as cadeiras, não as mesmas necessariamente, acolhem Lygia Fagundes Teles, Gabriel Chalita, Jorge Caldeira, Paulo Bomfin, Mindlin, Ruth Rocha e muitos outros.  

O prédio que acolhe os imortais dá uma sensação de coisas ocultas, de conversas ao pé do ouvido. Do corredor, ouve-se vozes fortes em discussão. “Briga de homenzinhos”, alguém comenta tentando suavizar o que parece estar sério. A reunião de uma hora encerra-se. A porta enfim se abre. Os acadêmicos parecem correr em busca de algo: a saída. Os poucos presentes na reunião, não mais de 15 segundo o redator de atas, vão em direção ao elevador. Ficam cerca de cinco a tomarem o café da tarde que é servido na sala em frente à porta do entra e sai de senhores da reunião.  

Os imortais olham desconfiados, sentem que há pessoas diferentes, fogem. Eles fogem da caneta e do bloco de papel. O presidente, José Renato Nalini, faz parte do grupo que procura a saída. No elevador, ele declara que “infelizmente não pode falar, está atrasado para ir dar aula”. 

Duas senhoras comentam sobre o rapaz sentado no sofá verde. Uma pergunta para a outra quem poderia ser aquele. Se era homem ou mulher, ou o que era. Ela parece não gostar da presença dele, logo vai embora. A outra segue para a sala de chá, onde a discussão da reunião não termina. Alguém diz que não se deve xingar os outros. Outro diz que não é com gritos que as coisas mudam.  

Ana Maria Martins, uma imortal de andar e roupas tradicionais e secretária geral desde 2007, antes de ir tomar seu chá fala em voz fraca que não pode responder a muitas perguntas, pois acaba de sair de uma forte gripe. Ela explica que “a Academia defende a língua portuguesa” e que, para ela, “ser acadêmica é ser reconhecida”. 

Diferentemente dessa quinta-feira, as reuniões costumam ser abertas ao público, Essa reunião foi um caso especial. Questões institucionais precisavam ser discutidas à portas fechadas.  

Restam três acadêmicos na sala do chá, bolo de cenoura com cobertura de chocolate e os pasteizinhos que Ana Maria Martins diz ter adorado. Dois homens escondidos em seus bigodes acompanham a secretária geral. Eles, depois de meia hora de chá, fogem para o elevador. 

A senhora Ana Maria ainda caminha do corredor até a sala da secretaria. O prédio já está vazio. A biblioteca e a sala de leitura já encerram suas atividades do dia. A porta de entrada, ou saída, no térreo está fechada. O porteiro abre o Largo do Arouche, que já se põe. A Academia Paulista de Letras dormirá mais uma vez.

Cemitério da Consolação: um museu a céu aberto

•outubro 30, 2008 • Deixe um comentário

A divulgação da arte tumular está em fase de crescimento no Brasil, e há muitas pessoas se empenhando para sua difusão

 Por Juliana Bragança

  

Quando se pretende observar obras de arte e deter-se nos pequenos detalhes, as pessoas buscam um museu. Mas o que muitos não sabem é que há um lugar pouco conhecido por suas obras, porém cheio de esculturas de artistas famosos e que pode ser visitado durante todo o ano, com a vantagem de ser de graça. Esse lugar foi fundado dia 15 de agosto de 1858, fica na Rua da Consolação, número 1660. Nele se encontram esculturas de Amadeu Zani, um dos fundadores da Academia de Belas-Artes de São Paulo; Vitor Brecheret, autor da maquete do Monumento às Bandeiras; Nicolina Vaz de Assis, tendo a Fonte Monumental, na Praça Mesquita como sua obra de destaque; e Rodolfo Bernadelli, que construiu o Mausoléu dos Andradas, em Santos.

     Mais conhecido como Cemitério da Consolação não é famoso por sua arte tumular, o que está em fase de mudança, pois segundo Maurício da Silva, administrador do cemitério, a prefeitura está investindo nesse assunto, e já é visto o retorno, pois o número de visitas tem aumentado. O cemitério, que completa 150 anos em 2008, é considerado um dos mais bonitos cemitérios do país, com o metro quadrado que custa R$ 3173,78. Visitas monitoradas são realizadas por Francivaldo Gomes, também conhecido como Popó, que em relação às visitas diz que têm o intuito de divulgar a arte tumular para os leigos.

     No cemitério da Consolação foi primeiramente manifestada a “art-nouveau” em São Paulo, por Nicolina Vaz de Assis. Popó conta que, além disso, no local há vários estilos de túmulos, como góticos, neoclássicos modernos, ortodoxos, com abóbadas ou também, colunas dóricas. Explica que antigamente as famílias ricas tratavam a morte de uma maneira mais poética, por isso há tantos túmulos com esculturas, arquitetura diferenciada e diversos detalhes. O mausoléu da família Matarazzo, construído por Luigi Brizzolara, possui 150m², comporta, em média, 28 caixões em seus 20 metros de altura.

     A arte tumular é pouco conhecida no Brasil, mas está em fase de expansão. Segundo Clarissa Grassi, autora do livro “A arte no silêncio”, “em países como França, Itália, Argentina, o turismo cemiterial ocupa lugar de destaque dentro dos roteiros turísticos. O Pere Lachaise em Paris é o terceiro ponto turístico mais visitado da cidade. O Cementerio de La Recoleta em Buenos Aires recebe diariamente centenas de turistas e conta com uma infra-estrutura de guias e mapas para atender os visitantes”.

     A autora, que sempre gostou de andar pelo cemitério devido à sua paz e tranqüilidade, revela que gosta de observar os túmulos, tentar imaginar quem foram as pessoas ali enterradas, o que motivou suas famílias a construírem um mausoléu ou a adornar o túmulo com uma escultura. Seu livro focou o Cemitério Municipal São Francisco de Paula, em Curitiba, “sempre que mostrava as fotos aos meus amigos, logo vinha a pergunta de onde seriam as esculturas, se de uma praça ou jardim. Bastava responder que eram esculturas de cemitério que a reação das pessoas mudava completamente. Percebi que no primeiro olhar, antes de saberem que se tratava de arte tumular, as pessoas elogiavam muito a escultura. Então era tudo uma questão de olhar”. Conta que daí veio a idéia de resgatar o olhar das pessoas para as esculturas e para a beleza da arte tumular, mostrando seu significado e sua história.

     Em relação ao vandalismo que ocorre com alguns túmulos, Popó diz que agora o Cemitério da Consolação conta com o apoio da guarda municipal, o que tem ajudado muito. Maurício da Silva afirma que desde que ele começou a trabalhar no cemitério, há dois anos e dois meses, não houve mais pichações; “as que têm são antigas”, afirma.

     Clarissa explica que placas e esculturas de bronze são os alvos preferidos dos ladrões, que as vendem para serem derretidas e reaproveitadas em outras ocasiões, “Até mesmo esculturas em outros materiais como o mármore são roubadas, revendidas e comercializadas como se fossem “esculturas comuns” em antiquários”, revela a pesquisadora.

     É interessante ressaltar os diferentes modos de sepultamento nas variadas culturas. Clarissa comenta sobre as várias formas de lembrar dos mortos: “No México comemora-se o Dia dos Mortos, quando as famílias passam o dia junto de seus mortos com as comidas e músicas que mais gostavam, rendendo homenagem em uma grande festa. No Brasil é um pouco diferente, cada região possui suas particularidades. Em alguns estados do Nordeste as carpideiras acompanham funerais e enterros”.

     Em algumas localidades da Argentina, membros da família vão semanalmente ao cemitério e abrem os túmulos para limpar a parte externa dos caixões e trocar flores, deixar cartas. Enfim, é uma diversidade enorme de costumes com relação à morte. “Cada povo tem suas crenças e formas particulares de cultuar os mortos. Basta pensarmos que iniciamos qualquer pesquisa arqueológica pelos túmulos e cemitérios, e assim entenderemos a importância que têm para nossa história. Os cemitérios refletem a nossa sociedade” conta ela.